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No livro, Modernidade singular: ensaio sobre a ontologia do presente (2005), Fredric  Jameson discorre sobre o Modernismo tendo em vista três perspectivas temporais, a saber: modernismo heroico, ideologia do modernismo e pós-modernidade.
A primeira perspectiva, a do modernismo heroico, teria relação com os acontecimentos revolucionários implicados com o advento da civilização burguesa, dentre os quais seria possível assinalar a Independênciados EUA, de 1771, a Revolução Francesa de 1789, a Revolução  Haitiana de 1791, a primeira ao mesmo tempo da periferia do sistema-mundo e da liberação negra, por negros;  a Revolução Popular francesa de 1848, a Comuna de Paris de 1871, inaugurando o primeiro governo operário da História.
Em relação a esses acontecimentos históricos, caberia uma pergunta: o que os motivou?


Um diálogo provável, diante dessa questão, é com o equatoriano Bolívar Echeverría, de Vueltadel Siglo (2006), no qual o autor de La modernidaddel Barroco(2011) argumentou, em interação com Mumford, de Técnica y civilización(1934), que a revolução da neotécnica, iniciada no século X, não apenas abriu o caminho para a produção da modernidade, mas também que esta seria o resultado daquela, tendo em vista uma relação indiscernível entre tecnociência  e materialismo de na história; relação que abriria caminho para uma perspectiva laica que emergiria para valer a partir da Revolução Industrial do século XVIII.

Argumento semelhante, embora em outro contexto, pode ser esgrimido a partir do livro O século(2007), de Alain Badiou, no qual a própria Ideia de século, nesse caso o XX, seria o resultado de pelo menos trezentos anos de um devir histórico autoconsciente de sua perspectiva laica, não sendo circunstancial, por exemplo, a Revolução Russa de 1917, marco de um período revolucionário que duraria, segundo o autor de O ser e o evento(2008), até o início da década de 70, data a partir da qual começaria a sofrer um descrédito ideológico em função dos desdobramentos contrarrevolucionários da Guerra Fria.


Essa autoconsciência histórica da/na modernidade motivou evidentemente todas as revoluções supracitadas, sem contar um sem número de outras e assim o foi porque a perspectiva laica, imanente à modernidade, possibilitou algo simples, baseado no seguinte axioma, proposto por Jacques Rancière, em Políticas da escrita: “O tempo não tem relação com a verdade” (RANCIÈRE, 1995, p.205)”, argumento que tanto pode ser usado para pensar o horizonte de atuação do capital, na civilização burguesa, como para refletir sobre a práxis revolucionária. Para ambos, o tempo não tem relação com verdades a priori.
Tendo em vista o pêndulo entre revolução e contrarrevolução, para Echeverría (2006), ahistória ulterior da neotécnica, após o século X, não estaria fadada, evolutivamente, a desembocar na civilização burguesa, pois esta seria de alguma forma uma tomada oligárquica de uma potência laica que poderia tornar-se a própria encenação histórica do citado axioma de Rancière, “o tempo não tem relação com a verdade (RANCIÈRE, 1995, p.205)”, donde seja possível deduzir, com Echeverría, que a civilização burguesa seja intrinsecamente contrarrevolucionária.


É interessante pensar essa questão a partir, por exemplo, daCrítica à filosofia de direito de Hegel (1843), no qual o jovem Marx, lendo a dialética do autor de Ciência da lógica (1816) reclamava, no entanto, a ausência de um sujeito coletivo, sendo este, já percebia Marx, o nome comum da/para a revolução, de/para o materialismo histórico, compreendidos como afirmação em potência da/na modernidade.


Essa potência humana, demasiadamente humana, como filosofia da práxis, foi, no entanto, objetivamente abortada por meio da propriedade privada dos meios de produção. Esta se constitui não apenas como a forma por excelência de captura burguesa contrarrevolucionária da potência laica da/na modernidade, mas também a sua versão estruturalmente ideológica, em termos de A ideologia alemã (1846), de Marx e Engels: falsa consciência de si.


Isso porque a propriedade privada, tendo a universalização das relações mercantis, o mercado, como referência, substituiu as relações sociais, generalizando o fetiche da mercadoria, forma ideológica de desejo que tende a substituir o desejo da/pela revolução, tendo em vista a apropriação privada dos produtos da atividade humana; apropriação que submeteu a potência laica da modernidade à reificação, posto que universalizou a forma“[...] mercantil tanto no plano subjetivo como no plano objetivo das mercadorias” (LUKÁCS, 1974, p.101), trazendo de volta aspectos religiosos – o ocultismo da forma mercadoria – para o interior da modernidade.
Talvez não seja circunstancial, em função mesmo do caráter fetichista da forma mercadoria, que a modernidade mesma tenda a ser criticada por segmentos intelectuais e comunitários que a acusam ora de antropocêntrica, ora de eurocêntrica, tendo em vista demandas não menos fetichistas de retorno a comunidades pré-modernas. Atualizando essa questão, Terry Eagleton (2010) a ela se opôs destacando não apenas que a modernidade não se limita à sua versão mercantil, mas também que apresenta um instigante problema para a perspectiva revolucionária, a saber: as conquistas burguesas, ainda que seletivas, sob o ponto de vista técnico-científico, não podem ser ignoradas.


Compartilhando com a posição assumida por Terry Eagleton, a afirmação da modernidade o é igualmente de sua potência laica por um sujeito coletivo, seja o operário, sejam as multiplicidades subjetivas contemporâneas, desde que o façam por meio da desmistificação consciente da forma mercadoria, retirando dela, da modernidade, a sua dimensão mercantil-fetichista a fim de transformá-la em práxis revolucionária permanente.


Retomamos, assim, o modernismo heroico de Jameson e o que está em jogo nele é a sua relação com a onda revolucionária que tomou o mundo nos séculos XVIII, XIX e XX, não sendo circunstancial que a literatura produzida no âmbito do modernismo heroico, por isso mesmo, seja experimental e não se fundamente pela tradição, então concebida como resultado hierárquico, e, portanto, religioso, da pré-modernidade.


Trotsky, em Literatura e revolução (2007, edição usada) leu essa questão a partir de outro viés. Para ele, a literatura revolucionária ainda não existiria. O que o modernismo heroico, em termos de Jameson, teria produzido, seria o esboço contraditório do que adviria com a tomada de cena do sujeito coletivo, o operariado, uma vez educado revolucionariamente não mais como oprimido ou como uma classe, mas como sujeito sem Estado, argumento que o autor de Revolução Permanente (1929) defendeu, em linhas gerais, ao analisar o suicídio de Maiakóvski (TROTSKY, 2007, p. 205) na ex-União Soviética.
A literatura revolucionária, nesse sentido, seria uma literatura sem Estado, pois este seria, em termos de Trotsky, intrinsecamente, a estrutura institucional de uma posição de classe.


A literatura revolucionária, portanto, seria sem classes sociais – o processo dessa criação permanente, assim como a revolução, compreendida, em processo, com Lukács, a partir do qual: “O operariado só se realiza suprimindo-se, levando até ao fim a sua luta de classes e instaurando uma sociedade sem classes” (LUKÁCS, 1974, p.95). Ou uma literatura sem classes.
Uma hipótese importante para este Colóquio Nacional diz respeito ao fato de que assim como está na “natureza oligárquica” da civilização burguesa ser contrarrevolucionária, assim também, em cada época histórica, a contrarrevolução se dá em múltiplos campos, inclusive no literário. Trotsky, a propósito, ao analisar o futurismo e formalismo, em Literatura e revolução, demonstrou compreender essa questão, ao alegar que ambos, futurismo e formalismo, foram basicamente contrarrevolucionários,não obstante reconhecer méritos próprios num e noutro.
É nesse contexto que a questão do imperialismo emerge. No livro, Imperialismo: fase final do capitalismo (2007), Lenin se refere à disputa do planeta por potências armadas, as potências imperialistas.


A base teórica para esse Colóquio relaciona essa disputa interimperialista do planeta com os argumentos esgrimidos no livro O nascimento da biopolítica(2008), de Michel Foucault e, portanto, com a questão da biopolítica. Para o autor da História da sexualidade: vontade de saber (1976), as forças imperialistas foram, desde o começo, hostis à disciplina estatal porque compreenderam que a disputa pelo planeta estava relacionada com a disputa pelo biótipo da humanidade em escala mundial.
Para Foucault (2008, p. 29), haveria dois modelos de biopolítica: um disciplinar, Estatal; e um segundo, imperialista, pós-Estatal, dividido, este último, em dois modelos, a saber: uma biopolítica imperialista vinculada ao contexto europeu-alemão, ao qual deu o nome de ordoliberalismo; e uma segunda biopolítica, dessa vez vinculada ao contexto americano, chamada de ordoliberal.
Nesse contexto, haveria, deduz-se,quatro formas de biopolíticas, as três primeiras marcadamente contrarrevolucionárias: 1. Biopolítica disciplinar-Estatal; 2. Biopolítica ordoliberal, vinculada ao expansionismo europeu; 3.Biopolíticaanarcoliberal, que diz respeito ao imperialismo americano; 4. Biopolítica revolucionária, apta a atuar, sempre ao mesmo tempo, tanto no contexto Estatal como no mundial.


O enfoque deste I Colóquio Nacional Literatura, Revolução, Indústria Cultural e Biopolítica, dar-se-á, no entanto, entre a terceira biopolítica, a anarcoliberal; e a quarta, aqui chamada de biopolítica revolucionária. Se, para Adorno e Horkheimer (1985, p.57), “O cinema, o rádio e as revistas constituem um sistema,“ para este Colóquio tal sistema é o da indústria cultural anarcoliberal americana, uma espécie de empresa mundial de produção de subjetividades relativas ao estilo americano de vida, compreendido como “O mundo presente e ausente que o espetáculo faz ver como mundo da mercadoria dominando tudo o que é vivido” (DEBORD, 1997, p.28).


E esse “tomar a tudo que é vivido” da mercadoria tende a tornar-se a quintessência do fetichismo no sistema da indústria cultural contemporâneo, sobretudo em função daquilo que Javier Echeverría (1999) chamou de domínio do terceiro entorno, no que diz respeito às Novas Tecnologias de Comunicação e Informação(NTCI).


No livro Los señoresdel aire: telópoles y eltercer entorno (1999), Javier Echeverría definiu como primeiro entorno o meio ambiente natural, dele fazendo parte a língua, o corpo, o clã,  a comunidade, o trabalho da temporalidade natural; de segundo entorno,  o espaço urbano, onde surgem mercado, as práticas culturais, o trabalho do tempo abstrato, cronológico, e o terceiro entorno, por sua vez, constitui-se pela virtualidade técnico-científica dos meios de comunicação.


O Colóquio Nacional Literatura, revolução, indústria cultural e biopolítica defenderá o argumento de que a dimensão contrarrevolucionária do anarcoliberalismo americano, após a Segunda Guerra Mundial, valeu-se e se vale das NTCI, monopolizando-as, por meio de multinacionais, com o objetivo de não apenas conter, domesticar e limitar a potência técnico-científica imanente ao terceiro entorno, mas também com o objetivo de reescrever de forma igualmente contrarrevolucionária a História humana nas dimensões de primeiro e segundo entornos, sendo esta a situação em que nos encontramos, na atualidade.


Se, pois, a biopolítica, na era do capitalismo monopólico, configura-se mundialmente, uma questão machadiana, tendo em vista o olhar de Roberto Schwarz, faz-se importante para o romancista, a saber: “[...] ter como matéria, que ordena como pode, questões da história mundial” (SCHWARZ,1992, p.31). Uma segunda questão, por sua vez, advém de Terry Eagleton, ao dizer que “Falar de literatura e ideologia como dois fenômenos separados que podem correlacionar-se resulta – espero ter demonstrado – em certo sentido completamente desnecessário. A literatura – como constructo histórico – é uma ideologia” (EAGLETON, 1998, p. 18).


Se o termo ideologia, tal como o define Carlos Pereyra, em “Ideología y ciencia”(1976), detém um sentido epistemológico de falsa consciência, também pode dizer respeito a um ponto de vista sociológico, vinculado à consciência crítica do lugar social ocupado por esse e aquele sujeito, donde seja possível interpretar que, em caso de um sujeito coletivo, a ideologia no sentido sociológico, proposto por Pereyra,  o é antes de tudo como filosofia da práxis revolucionária.


Afirmar, pois, como faz Eagleton, que a literatura é ideologia, tanto pode querer dizer que éinstância simbólica da falsa consciência de si, em termos epistemológicos; como, no sentido sociológico, compromisso com a figuração “im-possível” de uma práxis revolucionária que fabule e confabule uma biopolítica afirmativa, o que só será possível se sua matéria estiver implicada com questões mundiais, como a relativa à biopolitica imperialista das Novas Tecnologias de Comunicação e Informação(NTCI), tema deste I Colóquio Nacional Literatura, Revolução, Indústria Cultural e Biopolítica.